Há algum tempo, a Philco lançou no mercado uma campanha publicitária que contava com o slogan “tem coisas que só a Philco faz por você”. Não sei se a sentença expressava uma verdade ou se se tratava apenas de uma propaganda enganosa, porém, como estudante fascinada pela linguagem humana, me acho no direito de transpor a discussão para área que estudo. Em outras palavras, saem os produtos eletrônicos, entra a nossa língua portuguesa.
Aproveitando a ideia da propaganda da Philco, pego uma carona na frase principal e afirmo que (por experiência própria) tem coisas que só o palavrão faz por você. Sim, simples e curto assim. O que eu quero dizer é que quando a emoção explode, quanto as ideias extravasam, quando a adrenalina perpassa o limite da expressão, só um bom e impactante palavrão consegue dar conta do recado. A gente pode pular, se atirar no chão, rolar, quebrar pratos etc., mas, como boas criaturas projetadas para falar, parece que a nossa necessidade de comunicar o que sentimos só vai estar completa se pudermos soltar um bom e belo palavrão para o mundo ouvir.
Seja num momento de extrema felicidade, como um PUTAQUEPARIU, NÃO ACREDITO QUE PASSEI NESTA MERDA ou de extrema decepção, como CARALHO, ESSE BOSTA ERROU O PÊNALTI, palavrões parecem ser as únicas palavras capazes de realmente carregar para nossos interlocutores um tipo especial de mensagem que queremos não apenas informar, mas jogar ao vento para o maior número de pessoas possível ouvir. São como aqueles poucos, porém fiéis, amigos que parecem ser as únicas pessoas que conseguem nos entender.
E nós, falantes de português, somos privilegiados por possuirmos na nossa língua uma variedade enorme de palavrões e expressões de baixo calão capazes de aliviar qualquer estresse ou divulgar a felicidade. Sim, porque eu considero um privilégio dispormos de uma rede semântica extensa de xingamentos, diferentemente de outras línguas, que são bem limitadas nessa esfera do léxico. Pense no inglês. Em uma discussão entre duas mulheres, por exemplo, seria comum encontrarmos predominantemente a palavra bitch como uma ofensa. Em português, possuímos um acervo bem maior de xingamentos equivalentes a bitch que tornam as discussões muito mais interessantes, divertidas e (por que não?) criativas. Puta, vadia, cadela, china de beco, rampeira, biscate, piriguete, piranha são apenas alguns exemplos (que, tendo em vista a criatividade do povo, pode se estender a uma lista ad infinitum).
Outro exemplo seria a palavra shit, ingenuamente traduzida, muitas vezes, como droga ou bosta. É verdade que shit pode assumir essas duas traduções em português, porém, tendo em vista a grande possibilidade de xingamentos de nossa língua, acredito que a maioria das situações que levam um falante de inglês a falar shit leva um falante de português a falar coisas mais elaboradas do que um simples bosta. Pensemos, por exemplo, naquele momento de dor suprema que sentimos ao batermos o dedo mindinho do pé na perna da mesa. Eis um bom exemplo de shit que, em português, equivale a um MERDA, a um CARALHO ou até mesmo um bom PUTA QUE PARIU, tornando-se mais chulo de acordo com a intensidade da dor.
Um terceiro exemplo, também bastante conhecido, é fuck you, que pode assumir a ingênua tradução vai se danar. Porém, na vida real dos falantes do português, o fuck you está muito mais inclinado a ser um VAI TOMAR NO CU, VAI À MERDA, VAI À PUTA QUE PARIU ou, ainda, VAI SE FODER. E convenhamos que, em um momento de raiva, mandar alguém se foder é muito mais revigorante do que mandar esse alguém ir se danar.
Assim, diferentemente do que muita gente pensa, eu olho os palavrões com bons olhos. Acho que a linguagem chula, feia, pervertida, muitas vezes demonstra a criatividade de um povo em tentar colocar em palavras o que parece transpor os limites da capacidade linguística de comunicação. Além disso, essas palavras e expressões parecem funcionar muito bem como verdadeira terapia para quem as usa, visto que, muitas vezes, um bom e bem entoado palavrão parece tirar das nossas costas aquele peso que nem o melhor massagista ou o melhor terapeuta conseguiria tirar. É quase como uma função medicinal da linguagem. |