A criatividade é uma das coisas mais espontâneas e imprevisíveis do ser humano, é como um ataque surpresa, uma dor de barriga, uma espinha na testa. Diferentemente da beleza, por exemplo, que é possível obter pelos mais diversos meios (desde caríssimas cirurgias plásticas até o eficiente e enganador photoshop), a criatividade não tem como ser alcançada através de manipulações. Ela simplesmente vem. Em algumas pessoas, ela é frequente, aparece toda hora, a todo momento, então o sujeito recebe o adjetivo “criativo”. Em outras pessoas, a criatividade aparece de vez em quando, às vezes nos momentos menos esperados, como em meio a um engarrafamento ou durante o banho, e, da mesma maneira que surge inesperadamente, se despede e pula a janela sem deixar nenhum rastro. Há, ainda, o terceiro tipo de pessoa, que nunca recebe a visita da criatividade. Esse terceiro tipo deveria ter cotas pra tudo na vida, pois certamente é sempre o tipo mais mal falado nas rodinhas de amigos. Eu acredito que a criatividade seja responsável por praticamente tudo na nossa via: desde a roupa que escolhemos colocar ao nos vestirmos até o que vamos falar naquela entrevista de emprego importantíssima. A frase “seja criativo” é, com certeza, uma das construções imperativas mais difíceis de serem executadas – por favor, me peçam pra pular de pára-quedas, mas não me peçam para ser criativa! Para pular de pára-quedas, eu teria “apenas” que superar o medo de se jogar de uma altura de sei lá quanto metros, ao passo que para ser criativa, eu teria que superar o que mesmo? Não sei, talvez a mim mesma, mas que parte de mim? Criatividade não é simplesmente querer, criatividade é poder. E eu utilizo, aqui, “poder” como duas homonímias, tanto o verbo (no infinitivo) como o substantivo (power!). Criatividade é poder-verbo porque você tem que executar uma ação que é praticamente involuntária: criar uma coisa de alta aceitabilidade. Para isso, você tem que conseguir fazer as coisas acontecerem, as idéias fluírem etc., ou seja, você tem que ter condições de fazer isso, você tem que PODER fazer isso. Criatividade é poder-substantivo porque, uma vez que você consegue tê-la e colocá-la em prática, você terá o PODER na sua mão. Você será o todo-poderoso que, ao twittar uma coisa extremamente criativa, criar uma propaganda que será lembrada por anos ou passar uma cantada genial naquela gata, verá pessoas de queixo caído ao seu redor pensando “pqp, eu queria muito ter inventado isso”. Volto, então, à minha teoria de que pessoas sem criatividade deveriam ter cotas pra tudo na vida. Imagine uma festa: o cara criativo chega nas mulheres com um papo bom, muitas vezes engraçado (pois o humor bem feito, pra mim, é uma forma de criatividade) e consegue estabelecer uma conversa agradável baseado no contexto daquele momento. Logo, ele tem grandes chances de conquistar mulheres. Já o cara sem criatividade vai chegar falando do tempo, perguntando nome-idade-tamanho do sutiã, essas coisas. Se ele tentar fazer uma piada, vai dizer que o Rubinho é lerdo, a Preta Gil é gorda e o Fiuk é gay. Não que isso seja mentira, mas a obviedade dos fatos deixa transparecer a falta de criatividade. A chance com as mulheres, nesse caso, é bem menor e o cara vai ter que investir em outros atributos (como aparência, por exemplo), pra conseguir se dar bem. O mesmo vale para entrevistas de emprego, conquista de novos amigos etc. A criatividade é, portanto, qualidade que tem o poder de transformar a vida de muitas pessoas e, no caso da falta dela, dificultar muitas conquistas. Se acredito em uma força superior que rege o mundo? Claro! E que essa força seja responsável por grandes vitórias e, ao mesmo tempo, grandes derrotas? Também. E que essa força superior divina tenha o poder de mudar as nossas vidas? Obviamente! Tudo isso, pra mim, é a criatividade!
PS: as convicções religiosas da autora deste texto permanecem inalteradas.
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Mas tu há de concordar que geralmente pessoas muito artísticas, muito criativas, são desajustadas, ao passo que tem outras que vem sempre com o texto pronto, a mesma conversinha, sem nenhuma variação, sempre com o mesmo jeitinho e papinho ensaiado - mesmo assim - conseguem tudo o que querem.
O papel da criatividade anda meio delegado ao que é estranho nesse mundo (e ao que é belo, dependendo do ponto de vista) mas creio que a maioria das pessoas, com um refinamento cultural mais humilde, considera o 'novo' como uma excentricidade desnecessária. O que é uma pena, não é mesmo?
As escolhas que fazemos sobre o que louvamos e apreciamos sempre é uma boa mostra dos nossos valores e da profundidade de nosso intelecto. Por isso achei tão legal o papel proeminente que tu dá à criatividade.